Filosofia Clínica

A Filosofia Clínica

Abaixo, trechos do meu livro, A Escuta e o Silêncio. Lições do Diálogo na Filosofia Clínica (2008).

Em termos teóricos...

"A Filosofia Clínica é um novo método de se fazer terapia, fundamentado nas teorias filosóficas acadêmicas, surgido na década de 80 da prática clínica do filósofo Lúcio Packter na Europa e no Brasil. Uma terapia filosófica muito distante do ranço moral do mero aconselhamento, e por não conceber quaisquer doenças ou distúrbios comportamentais de natureza exclusivamente psíquica, tipologias abstratas, estruturas inflexíveis e universais etc, igualmente se afasta do conceito psicológico de cura. Para além ou aquém das causas orgânicas, de raízes neurológicas, a Filosofia Clínica não cura, cuida.

(...).

"Particularmente, a Filosofia Clínica investiga o conceito de psicoterapia, buscando também um novo olhar sobre a ética nas relações com o outro, aquele com quem se partilha os cuidados terapêuticos. Seu esforço de reconduzir o pensamento a respeito, entretanto, não faz dela uma filosofia da psicologia, ainda que discuta métodos e fundamentações. Em seu esforço, a Filosofia Clínica possibilita a recondução do entendimento e da pesquisa tanto quanto inaugura métodos práticos de trabalho.

"A Filosofia Clínica é uma práxis de alteridade que trouxe às psicoterapias todas as visões de mundo já pensadas nesses 2500 anos de filosofia. Por se tratar de uma autêntica reflexão aberta, crítica a si mesma, ela é capaz de entender a subjetividade de quaisquer indivíduos sem fugir a uma só manifestação existencial singular de ninguém. Novas filosofias que ainda hão de surgir, endossando possibilidades, só intensificarão seu grau de escuta e o diálogo com as diferenças.

Ademais, sempre houve um caráter terapêutico na filosofia, um autêntico cuidar do ser na formação humana desde a Paidéia dos gregos antigos, quando ainda não havia a secção moderna a separar teoria e prática. Seria um grande erro pensar que a Filosofia Clínica não é filosofia simplesmente por acreditar que ela tem posse das verdades psicológicas, dos mapeamentos e diagnoses das psicologias, como se ela pretendesse-se científica. A Filosofia Clínica procura antes desfazer falsos problemas existenciais derivados de certa forma de pensar as teorias da psique humana.

Que a atividade filosófica se torne eficaz e tenha um alcance terapêutico em nada implica quaisquer formas de cura, embora possa haver coincidência em alguma comparação. O que faz o filósofo clínico é outra coisa: entender a natureza dos problemas existenciais daquele que o procura e ajudá-lo no em seu livre-arbítrio, ante as múltiplas e difíceis escolhas da vida. É o caráter epistêmico, pedagógico e ético desta filosofia que lhe permite um método terapêutico".

O que o filósofo clínico faz na prática?

"Em termos práticos, como isso acontece? Em síntese, funciona assim... Laura, uma mulher de 25 anos, chega à clínica e traz a seguinte questão: tem um forte sentimento de culpa em relação ao pai. Diz que o matou e que agora precisa urgentemente aliviar sua dor com um pedido de perdão a ele, mas julga impossível voltar no tempo. Sofre dores de cabeça e uma insônia crônica. O que faz o filósofo clínico num caso desses?

"Sem bola de cristal, ele não sabe das razões últimas dos problemas que lhe são ditos na primeira consulta, raramente apresentados com clareza e muitas vezes diferentes do que se supunha. Tais queixas a ele trazidas constituem-se tema de exames categoriais, no gênero assunto. Consultas que podem ser feitas em qualquer espaço, tanto mais produtivamente se mais adequadas às necessidades e conforto do partilhante [a concepção de "outro" em Filosofia Clínica é mais bem traduzida como "partilhante", em vez de cliente ou paciente]: seja num passeio pela praia, pelo campo, à mesa de um bar, por telefone, pela Internet, na própria casa do partilhante ou até mesmo no consultório.

"Para ser íntimo das questões importantes, sobretudo por ainda não conhecer nada da vida do outro, além das primeiras impressões, o filósofo pede ao partilhante que lhe faça um relato panorâmico de sua história, desde o nascimento até os dias atuais. Respeitando os dados de semiose utilizados por ele (fala, escrita, pintura, dramatização etc), cumpre-se um mínimo de interferências por parte do terapeuta. Evita-se agendamentos de informações, ou seja, direcionamento de assuntos e interesses via perguntas, linguagens corporais ou comentários outros... no processo da escuta, para não falsear a maneira como ele se mostra existir por si mesmo.

Se a pessoa me conta sua história de vida e eu a interrompo com perguntas do tipo "fale-me um pouco sobre sua família... sobre os seus sonhos... sobre tal aspecto etc" eu não estaria ouvindo a história da pessoa por ela mesma, segundo o que ela quer me dizer, mas apenas segundo o que eu quero ouvir. Tal silenciamento faria perder o máximo de aproximação da originalidade de cada ser, necessário ao conhecimento das suas verdades subjetivas. Naturalmente, o trato com crianças é diferente do de um adulto.

A historicidade é feita também através daqueles que com ela convivem, apesar de suas perspectivas serem geralmente distantes da versão subjetiva dela. Todas as linguagens e dados de semiose são utilizados, no alcance e competência do filósofo, quando necessário para o entendimento. A cada um é preciso verificar as necessidades mais apropriadas.

"A história da pessoa contada por ela mesma é, dessa forma, obtida por três critérios básicos utilizados pelo filósofo clínico, a saber: 1. como já dito antes, utilizando agendamentos mínimos; 2. considerando somente os dados literais; e 3. não permitindo (tanto quanto possível) um discurso com saltos lógicos e temporais. Mas como é possível um agendamento mínimo com um histórico assim tão sistematizado? Claro que há vezes em que o partilhante em suas mesclas e confusões não consegue se expor dessa maneira ordenada, assim como há pessoas que jamais o farão. Outras ainda não suportariam falar diretamente de si mesmas. Para isso é que o filósofo se vale dos seus estudos de esteticidade e filosofia da linguagem (dados não-verbais, não racionalizáveis, aspectos somáticos, expressões de arte, intuição, variados jogos de comunicação etc) no uso de submodos clínicos. Casos especiais exigem processos alternativos, naturalmente.

À parte isso, o importante é que se fazem necessárias algumas condições ao menos suficientes para que o entendimento seja possível sem interpretações aleatórias e sem pressuposições teóricas por parte do terapeuta. Se o partilhante insistisse reiteradamente em abandonar as construções de sua linguagem no meio da frase e mudasse de assunto, divergindo considerações mil... se contasse a sua história sem avisos de quando está se referindo a fatos do passado, do presente ou se não soubéssemos se ele apenas está emitindo imaginações extemporâneas a respeito... enfim, se tudo assim fosse, haveria tantas omissões, enredamentos caóticos, lacunas etc que muito provavelmente colocariam o filósofo clínico afastado da segurança metodológica em que se apóia - sem a qual seus esforços não teriam mais vantagens que as mágicas terapêuticas do senso comum. A terapia sempre é possível a todos, mas cada caso tem seus próprios limites.

"Muito possivelmente, o filósofo talvez se valha de umas três ou quatro consultas para completar a primeira parte do seu trabalho, dando início ao exame das categorias circunstância, lugar, tempo e relação. Feito isso, são utilizados processos de investigação por dados divisórios e enraizamentos no histórico, aprofundando informações por meio do empirismo e da analítica da linguagem. Todo o contexto físico e psicológico circundante à vida da pessoa, desde sua primeira lembrança até os dias atuais é por ele relatado. Depois, isso é mais detalhadamente revisto em vários períodos curtos, intercalados seqüencialmente do início até o fim; sempre respeitando com rigor aqueles três critérios antes citados. Momento em que é possível o acréscimo de novos dados antes ocultados ou esquecidos no primeiro relato.

"São muitas e variadas as constatações ainda no puro âmbito das hipóteses: desde contradições, dúvidas sobre a correspondência factual de certos eventos, receios sobre temas evitados, perdas completas ou parciais de memória em certos trechos, imaginações criativas, mentiras etc. Somente então, atento às queixas trazidas ao consultório e já com mais conhecimentos sobre a maneira de ser e viver do outro, o filósofo se põe com muita cautela à pesquisa minuciosa e pontual até à raiz dos elementos mais importantes do discurso, fenomenologicamente. Tudo isso assegura as condições necessárias para o estudo da linguagem do partilhante, os usos específicos e contextualizados de cada experiência na vida dele, descobrindo as associações feitas entre os termos por ele utilizados e os fatos que vivenciou. Independente de mim, o significado da essência da vida do partilhante está nele próprio. Mas, salvo telepatias, místicas e metafísicas, para todo ser humano o sentido está preso na linguagem. Só posso compreendê-lo se escutá-lo.

"Com indicações problemáticas a partir do assunto imediato (ou último) e pesquisando a malha psíquica da pessoa, o filósofo clínico procura identificar e montar a sua estrutura de pensamento [EP], considerando tópico por tópico todas as temáticas e perspectivas existentes no discurso dela. A rigor, existem tantos tipos específicos de personalidades quantas pessoas e circunstâncias existirem no mundo. Com uma completa visão estrutural da psique do partilhante é dada ênfase ao mais importante: os conflitos tópicos. Estes são de muitas naturezas, podendo se dar 1. em confrontos diretos e indiretos internamente entre os tópicos de uma mesma EP, 2. pelos choques existenciais na relação com estruturas de outras pessoas 3. ou quando motivado pela mudança do ambiente físico etc.

O filósofo observa o que nela se constitui um padrão ao longo da vida e o que no momento é atual, sem a obrigação de preenchimento de todos os tópicos que essa estrutura é capaz. Há características ou tópicos existenciais que por mais que sejam fortes e determinantes para uns, para outros simplesmente inexistem. Por exemplo, seria tolice concluir a priori que a sexualidade é igualmente importante para todo ser humano. A partir da cultura e do tipo de relações envolvidas, o partilhante pode ser cobrado a vivenciar valores, emoções, erotismos etc que nele não existem, violentando-lhe a maneira íntima de ser; com conseqüências.

Sem condenações e rótulos de nenhuma sorte, uma pessoa tem pleno direito existencial a vincular-se num casamento sob outras necessidades subjetivas que não o sexo e o amor, como o dever religioso, filhos, a segurança da rotina, a pura satisfação dos pais etc. Por que haveria ela necessariamente de ser julgada por isso como frustrada, neurótica, com emoções e desejos inconscientes...? Sobre qualquer julgamento de tudo o que há para se dizer a respeito de uma pessoa, eis as variantes de modo e intensidade a considerar nos cinco exames categoriais: "isso é determinante, importante ou sem valor para ela... e de que maneira especificamente?". Só então é possível ao filósofo clínico ter uma percepção ampla de como um indivíduo é por ele próprio, fenomenologicamente.

(...).

"Sem dificuldades, então é feita uma autogenia entre todos os tópicos existenciais, isto é, uma análise descritiva, jamais absoluta, sobre a maneira como se configura na totalidade os elementos da EP de um partilhante. Isto porque cada um desses tópicos se encontra internamente num entrelaçamento contínuo uns com os outros: uns com mais força, outros menos e outros nenhum pouco. Por exemplo, um simples aroma de café (Sensação) pode eventualmente ser determinante para alguém recuperar a vontade de viver (Axiologia), por fazê-la lembrar-se (Abstração) de um amigo e de um poema que lera numa certa madrugada. Mas esta experiência talvez só cause este efeito (Comportamento e Função) quando ela se encontre sozinha (Inversão) e de preferência sob a luz do fim da tarde (tempo).

Além disso, cada tópico existencial se relaciona de uma maneira própria com a EP dos outros e com o meio-ambiente. Tais vínculos de intercâmbio são chamados de interseções, e formam acordos, combinam ajustes tão sutis que, como a própria vida não poderiam ou não deveriam ser engessados pelo dogma de qualquer teoria universal. Por exemplo, a crença de que o gênero humano é na essência feito de sentimentos exigiria, para qualquer problema na vida, um tratamento das emoções.

Porém, este é apenas um único tópico isolado da estrutura psíquica do ser humano. Como saber a maneira específica com que cada indivíduo lida com as emoções sem conhecê-lo pessoalmente e investigar as circunstâncias em que ele e mais ninguém viveu? Penso que quando um terapeuta fala do outro sem antes o escutar, apenas o silencia.

"Diagnósticos elaborados, a próxima ação é o estudo dos submodos mais adequados ao partilhante. Noutras palavras, trata-se do conjunto de recursos internos que a própria pessoa tem de resolver suas questões. Enquanto algumas pessoas encaminham seus problemas refletindo sobre eles, outras o fazem pela fé, pelo isolamento social, comprando futilidades, conversando com amigos, memorizando volumosas listas telefônicas ou saindo para dançar até a exaustão etc. Sem os cuidados categoriais, ninguém pode entender quais alternativas se constituem benefícios reais ou saídas contraproducentes. Por último, cabem suas aplicações. "Considerando-se naturalmente as variedades, em média toda a clínica se dá em seis meses, somando-se depois as consultas de revisão e acompanhamento".

Quais as relações e diferenças entre Filosofia Clínica e Psicologia?

"Não poderia haver maior equívoco ao se acreditar que os dramas pessoais são meramente psicológicos. Por certo não. Há importantíssimas questões filosóficas concernentes à relação entre a mente e as estruturas do mundo que a envolvem. Isso justifica o posicionamento e definição de conceitos tais como "indivíduo-coletividade", "alma-corpo", "vontade", "ilusão", "verdades subjetivas", "morte", "eutanásia" etc. Por fim, até as questões psicológicas devem antes ser fundamentadas pela filosofia, em busca do entendimento e transformação do que é ou se denomina "realidade". Antes das psicologias ou psicanálises, é missão da filosofia garantir uma indispensável certeza: para se conhecer as profundidades de alguém se deve primeiro saber quais são os limites do conhecimento. O mais sábio há de ser o mais humilde.

"Diferentemente das psicoterapias, em filosofia não se pode dizer que um sistema de pensamento seja refutado, superado ou trocado por outro melhor; exceto, claro, se o sistema foi mal elaborado, constituindo-se portanto má filosofia. Isto porque cada teoria filosófica possui tal coerência de raciocínio e concordância de idéias, segundo seus próprios postulados e regras lógicas, que a torna inegável. Divergências e críticas a partir de outros princípios não lhes retiram os fundamentos, apenas abrem novas perspectivas sobre o real. Conquanto a Filosofia Clínica, a psiquiatria, as psicologias e as psicanálises se fundamentem na filosofia e tirem conclusões filosóficas, somente a primeira é capaz de uma releitura de toda a tradição filosófica em seus próprios procedimentos técnicos.

A força presente nas conseqüências disso reside na potência de conhecimento e de coesão no tratamento de conflitos filosóficos de natureza existencial. Na resolução de problemas psicológicos, antes é preciso saber se o problema foi bem elaborado, no nível das definições e encaminhamentos. Afinal, de que vale a solução correta... do problema errado? E para que formular perguntas cujas respostas nunca poderão ser honestamente conhecidas?... Quantas e quantas vezes o fácil alívio de um sintoma psicológico veio justamente mascarar a resposta a uma pesquisa das causas profundas? Como se verá mais adiante, nas raízes de uma aparentemente simples demanda clínica, há importantes questões epistemológicas, de linguagem, de estética, de lógica, instâncias metafísicas, contendas éticas etc, cujo abandono não apenas faltam com a verdade, mas também com amor".

(...).

"...isso esclarece as diferenças entre a Filosofia Clínica e as psicologias tradicionais, considerando ainda que toda a sua fundamentação, métodos e procedimentos derivam diretamente da filosofia acadêmica e, como já foi dito, com total ausência de concepções de normalidade e psicopatologia, de tipologias e de técnicas universais na clínica. O enfoque das questões existenciais, na terapia de Packter, pode coincidir no geral e algumas vezes com a perspectiva e técnicas de várias psicologias. A depender do caso específico, a ênfase pode ser dada ao comportamento (behaviorismo) ou à necessidade da vivência do "aqui-agora" (gestalt), entre outros. Momentos valiosos para interlocução e aprendizagem mútua, revendo conceitos, práticas e valores...".

Ver mais

Meus Vídeos